Originariamente, o Karate "moderno" tal como o conhecemos hoje, tem as suas origens nas mais antigas civilizações do Extremo-Oriente. Historicamente, pode ser encarado como o produto final de uma grande quantidade de experiências, de formas de combate e de acontecimentos.
Antes dos escritos do Mestre Gichin_Funakoshi (1922), as fontes de informação sobre o Karate eram muito reduzidas ou praticamente inexistentes. Isso significa que a informação básica sobre o assunto deriva, na maior parte dos casos, da transmissão oral com alguns Mestres de Karate japoneses ainda vivos, e alunos directos dos fundadores dos estilos actuais.
Todavia, há factos na própria História da China e do Japão, que são importantes referências e "pistas" para se compreender melhor essas épocas.
Torna-se pois necessário, para uma melhor compreensão da evolução do Karate, referir alguns factos e períodos que são de uma importância central no seu desenvolvimento. Assim, podemos definir 3 períodos importantes: até ao Século XIII - o Taoismo fundiu-se com o Budismo indiano (Mahaya) para produzir o Zen, Bodhidarma na China e o Mosteiro de Shaolin. Entre o Século XIII e a metade do Século XIV - o Tode e o Ch'uan Fa são já conhecidos e utilizados em Okinawa. Finalmente, o período da prática e transmissão secretas, desde a invasão de Okinawa por Shimazu em 1609 até ao aparecimento oficial do Karate em 1902. Este último período, parece-nos ser o mais importante, pois é nele que se faz a síntese das várias formas de combate de mãos nuas, que irá dar origem ao sistema de movimentos chamado Karate.
O Zen chega ao Japão durante a era Kamakura (1185-1333), quando a ditadura militar de Yorimoto e o seu séquito de samurais atinge o poder. Este acaso fornece à classe militar (os Samurais) um tipo de Budismo que a atrai pelas suas qualidades práticas. Aparece então nessa forma de viver chamada Bushido, que é, essencialmente, a aplicação do Zen às artes de guerra.
O Zen nasce do encontro do Budismo indiano e do Taoismo chinês. A junção destas duas formas de pensamento dará origem ao Budismo Tch'an, considerado o antepassado do Zen.
O termo sânscrito Dhyana, que significa "meditação" (meditar sentado, em japonês Zazen) "contemplação" ou "concentração mental", teve em Bodhidarma (fundador da escola Dhyana) o seu percursor, dando origem, posteriormente, ao Zen.
Bodhidarma
Bodhidarma, terceiro filho do rei Suganda, viveu a sua infância na Índia, em Kachipuram, pequena e dinâmica província budista a sul de Madras. Pertencia à casta guerreira (Kshátriya) e era conhecedor desde muito novo dos princípios do Yoga. Recebeu formação religiosa do Mestre Prajnatara.
China
Há muitos séculos atrás, uma grande variedade de técnicas de combate sem armas foram criadas na Chuna, desenvolvendo-se especialmente durante a Dinastia Tang (618-907 d. C.). A História chinesa regista a ajuda de monges do Mosteiro de Shaolin ao Imperador Tang Tai Chung, no combate a grupos revoltosos.
Durante a Dinastia Sung (1101-1126), um Mestre chinês levou a efeito um estudo de muitos estilos originários da religião Taoista e criou o seu estilo, o Tai Chi Chuan. Este estilo dá um relevo especial ao desenvolvimento mental e à manutenção da saúde, deixando para segundo plano o aperfeiçoamento da técnica de combate. Este estilo pertence à "escola interior" (de tipo interno) ou das técnicas suaves.
A escola que veio a desenvolver-se em Shaolin, dava mais atenção ás técnicas de combate que à manutenção da saúde, e por isso foi classificada de "escola exterior" (de tipo externo) ou das técnicas duras. Depois destas, muitas outras escolas foram criadas, desenvolvendo-se e misturando-se umas com as outras, sendo difícil a sua identificação.
Monges de
Shaolin
Crê-se que em Shaolin se desenvolveu por volta de 1280 o Wu Shu, e que o Mosteiro acolhe as cabeças de algumas sociedades secretas, que lutaram contra o poder e domínio mongol, que acabaria com a instauração da Dinastia Ming (1368-1644).
Antes de Bodhidarma, chegaram à China os Mestres Budistas indianos - Kumaraijiva (antes de 400), Bodhiruci (após 500) e Paramartha estava na corte de Liang, na altura de Bodhidarma.
O Budismo é introduzido na Coreia no ano de 372 a. C., por monges indianos que viajaram da Índia para a China e o Zen no Japão durante a era de Kamakura.
Bodhidarma, após a morte do seu mestre, chega a Cantão, vindo da Índia, por volta do ano 520, dirigindo-se à corte do Imperador Wu, da Dinastia Liang, grande protector do Budismo e da literatura. Algum tempo depois, sai da corte e retira-se para o Mosteiro de Shaolin (em japonês Shorinji) em Wei. Aqui, ensina uma forma de religião contemplativa, destinada a criar um "estado de graça" por Satori (iluminação súbita). Ascetismo e meditação em posição Zazen (sentado), eram as duas formas principais do seu ensino e prática.
Entre os monges budistas, os Instrutores distinguiam-se pelas seguintes funções: Mestres de Dhyana - os que ensinavam Zazen, Mestres de Vinaya - os que ensinavam a disciplina monástica e Mestres de Dharma - os que ensinavam a doutrina.
Na sua passagem por Shaolin, Bodhidarma ensina aos seus discípulos uma série de exercícios físicos destinados a manter o corpo e a mente em boas condições e a prepará-los para as longas horas de meditação. É provável que juntasse princípios do Yoga e movimentos tirados do velho boxe indiano (Vajnamusti). Como a utilização de armas era proibida por religião e os monges tinham, para além de defenderem o Mosteiro, que se precaver nas suas caminhadas solitárias contra assaltantes num país agitado por guerras civis, é provável que algums formas de luta fossem ali desenvolvidas e misturadas com outras, resultando naquilo que mais tarde viria a chamar-se de Shaolin Kempo, Shorinji Kempo (em japonês). No Mosteiro, o nome de Shih Pa Lo Han (as 18 mãos de Lo Han), deixa um rasto histórico, como uma referência às posições das estátuas dos guardas dos antigos templos hindús.
Muitos anos mais tarde, um Mestre chinês de Chu'an Fa, verifica e combina os movimentos de Lo Han com outras formas do seu próprio estilo e alarga-os para 72. Em contacto com outro Mestre chinês, alargam os 72 movimentos para 170 golpes defensivos e ofensivos, dando a alguns deles os nomes de dragão, tigre, cobra, andorinha e grou (ave pernalta).
Com a saída dos monges, a fama do Shorinji Kempo (o boxe do templo) espalhou-se por toda a China.
Okinawa
Okinawa é a maior ilha do arquipélago de RyuKyu. As suas relações comercias com a China remontam à Dinastia Sui. No século XIV, o rei Satsudo de Okinawa torna-se vassalo do Imperador Ming. Esta situação leva à troca de funcionários oficiais e de adidos militares entre os dois lados, e dá origem à introdução, pelo lado chinês, do Chu'an Fa (Kempo) no arquipélago.
Em 1429, o rei Shoashi unificou todo o arquipélago e baniu o uso de armas. Esta proibição dá um impulso à prática das artes de mãos nuas.
Em 1609, as ilhas RyuKyu são conquistadas pelo japonês e "Senhor da Guerra" Shimazu, do Clã Satsuma. Esta invasão deve-se a três motivos: à prosperidade da ilha; às boas relações, quase de protectorado, com a China e à sua recusa em ajudar Shimazu e o Shogun Toyotomi Hideoshi, na sua tentativa, sem sucesso, da invasão e conquista da Coreia (1592/96), na altura um protectorado chinês.
As tropas japonesas, em número de 150000, comandadas por Toyotomi Hideyoshi invadem a Coreia em 1592. Em pouco tempo dominaram todo o país, mas no mar a situação foi diferente, pois a armada coreana, dirigida pelo almirante coreano Yi Sun Shi derrota a armada japonesa em todas as operações marítimas. Ao fim de quatro anos os japoneses retiram-se.
Shimazu, após a conquista de Okinawa, determina a proibição total de todas as armas e artes marciais. Uma vez mais, as artes de mãos nuas são desenvolvidas a um nível elevado. Alguns nobres praticam com os adidos militares chineses das cidades de Shuri, Naha e Tomari. A esta arte de combate dão o nome de Okinawa-Te. Paralelamente, e com base em utensílios de uso agrícola, outras classes sociais aperfeiçoam autênticas armas de defesa contra os sabres japoneses (Nunchaku, Sai, Naginata, Jite, Tonfa).
O nome de Okinawa-Te mantém-se até ao aparecimento de Sakugawa (1750) que praticou Kempo e Bo na China, e que transmite em Shuri aquilo que classificou de Karate-no-Sakugawa.
Deve ter sido a primeira vez que o termo Karate foi utilizado e "Kara" era, na altura, uma referência à Dinastia Tang. Para os japoneses, significava técnicas chinesas.
É possível que o próprio Okinawa-Te (o parente mais próximo do Karate actual) fosse já uma síntese do Shuri-Te, do Naha-Te e do Tomari-Te, nome das formas de combate existentes nas cidades de Shuri (capital de Okinawa), de Naha e de Tomari, com grandes semelhanças, mas já com características próprias de cada região que se vêm a confirmar no futuro.
Para além disso, o Okinawa-Te seria já uma selecção e combinação do punho fechado (Tode - originário de Okinawa), do Chu'an Fa "Kempo" (mãos abertas e originário da China), dos picos de dedos "Nukite" (de Taiwan devido à sua proximidade, a sul de Okinawa), do antigo boxe indiano "Vajnamusti" (ensinado por Daruma na China) e das técnicas de pernas (pontapés) vindas do Sudeste da Ásia (Tailândia e Indochina) e introduzidas no arquipélago via Taiwan (Coreia) ou Foochow na China.
Por volta de 1830, Sokon Matsumura (que praticara com o adido militar chinês em Shuri) vai para a China onde se especializa em Shorinji Kempo. Quando regressa a Okinawa, funda em Shuri o "Shorin Ryu-Gokoku-an-Karate".
Sokon Matsumura
Em 1848, é nomeado Instrutor-Chefe das artes marciais de Okinawa.
Um dos seus alunos mais brilhantes e continuador do Mestre Matsumura foi o Mestre Anko Azato.
Dois Mestres famosos desta época, Anko Itosu (de Shuri) e Kanryu Higaona (de Naha), tiveram uma enorme influência no desenvolvimento do Karate de Okinawa e posteriormente (através de alunos seus) na sua divulgação no Japão.
Posteriormente, Gichin Funakoshi, Chojun Miyagi e Kenwa Mabuni, todos estudantes de Azato, Itosu e Higaona, fazem a síntese do que lhes parece mais aceitável (ou aproveitável) das técnicas antigas e contemporâneas de Okinawa, e dão origem a um Karate mais "standardizado" e aos estilos Shotokan, Goju-Ryu e Shito-Ryu.
Da esquerda para a direita: Gichin Funakoshi, Chojun Miyagi e Kenwa Mabuni
Cronologicamente, teremos na linha e na tradição de Okinawa:
Japão
Com o início da era Meiji (1868) dá-se o fim do Shogunato.
O poder regressa ao Imperador e Mutsu-Hito ascende ao trono como nome de Meiji. A corte instala-se em Edo que passará a chamar-se Tokyo.
Nos anos que se seguem, os Samurais são privados dos seus direitos (1876 é o ano da abolição do porte de sabre). Inicia-se a liquidação do sistema feudal e a introdução no país de reformas modernas.
Em 1877 dá-se a rebelião de Satsuma, nome pelo qual é conhecida a insurreição de Saigo no Ocidente. Esta rebelião de 9000 Samurais sob o comando de Saigo Takamori foi a derradeira revolta contra a vontade do Imperador em modernizar o Japão. A derrota de Saigo foi o fim do "mundo Samurai" e acaba com uma era de guerras civis que abalaram o Japão durante cerca de 1500 anos. Em 1879 Okinawa torna-se província japonesa. Em 1889 é promulgada a Constituição Japonesa.
Com a administração japonesa muitas coisas mudaram em Okinawa. O sistema educacional altera-se com a criação de escolas primárias e liceus públicos, assim como se criam escolas de formação de professores e o serviço militar torna-se obrigatório.
Durante as inspecções militares, os médicos japoneses ficam surpreendidos pela constituição física de alguns jovens praticantes de Okinawa-Te. Depois de um rigoroso inquérito, é enviado um relatório ao Ministério da Educação, que autoriza o seu ensino. Em 1902, introduzido nos programas de educação física das escolas públicas (como método educativo, que desenvolve as qualidades morais e o gosto pelo esforço), o Karate faz finalmente a sua primira aparição pública. A partir daí, o Mestre Anko Itosu começa a ensinar Karate nas escolas de Okinawa, como uma forma de ginástica para fortalecer o corpo.
Rapidamente o Karate torna-se popular e depois de algumas demonstrações nas principais cidades de Okinawa, cabe ao Mestre Funakoshi a sua introdução no Japão. Outros Mestres o seguiram promovendo as suas próprias versões do Karate.
Sensei Funakoshi executa gyaku-tsuki
A ilha de Okinawa esteve desde 1945 até princípios de 1972 sob administração dos E.U.A.