Considerações

A Saudação (Rei) é uma expressão de respeito, de gratidão e de cortesia para com o parceiro, entre os alunos e o professor e para com o lugar onde se pratica: o "Dojo". Simultaneamente, é uma preparação do espírito para a prática. Não deve ser feita "com pressa", mas devagar e com dignidade. O Karate começa e acaba sempre com a saudação. Há duas formas de a executar: de pé (Ritsurei), inclinando ligeiramente o tronco, ou de joelhos (Zarei).

O Karate é uma Arte Marcial / Desporto de Combate:

Individual
Com Estrutura da Habilidade: Acíclica
Com Exigência Funcional: Sistema Nervoso Central, Locomotora, Cárdio-Respiratória
Com Intensidade Dominante: Variável
Com Capacidades Motoras Dominantes: Coordenação, Velocidade, Força, Resistência, Flexibilidade

Antes da parte principal da aula (ou do treino) se iniciar, os Karatecas executam alguns exercícios físicos destinados a preparar orgãos, músculos e articulações, que vão ser no decorrer da aula inensamente solicitados.

Acelerados progressivamente, os aparelhos respiratório e circulatório, graças aos estímulos exercidos no conjunto dos exercícios preliminares, encontram-se então nas melhores condições para executar um trabalho mais intenso.

O aumento da temperatura do corpo, para além de aumentar a elasticidade muscular, é benéfico para as reacções químicas que se produzem nas fibras musculares sujeitas ao esforço.

Esta preparação (aquecimento) inclui também alguns exercícios destinados a dar maiores possibilidades de flexibilidade articular e de alongamento muscular, que visam facilitar, ao longo do treino, a execução técnica.

O Aquecimento deve estar de acordo com a parte principal do treino (ou da aula). Deve ser suficientemente intenso para elevar a temperatura do corpo, mas nunca ao ponto de causar fadiga. De uma forma geral, durante o tempo quente poderá ser mais curto e no Inverno mais prolongado. Mais tarde, a intensidade e a duração devem ser adaptadas aos níveis de cada Karateca.

Para que uma técnica de Karate se torne eficaz, é necessário que seja executada quase inconscientemente, com o máximo de velocidade e de coordenação. Para dar a velocidade desjada a uma técnica de Karate é necessário um treino considerável.

Para se atingir isso, poderá ser utilizado o método das repetições, onde a intensidade é elevada e o volume baixo, a duração curta e os intervalos longos.

Os trabalhos de Velocidade (coordenação, técnica, reacção, equilíbrio e concentração), devem ocupar a parte inicial da unidade do treino, de forma a que o S.N.C. esteja "fresco", e os exercícios a treinar deverão ser aqueles onde a componente técnica esteja bem dominada.

Devido à necessidade de executar, reagir e deslocar-se rapidamente, ao longo do treino (ou da aula), as formas de manifestação de velocidade que mais interessam ao Karate são: velocidade de reacção (simples e complexa), velocidade de execução, velocidade de deslocação e resistência de velocidade.

Os músculos são treinados para fazerem esforços rápidos e breves. Neste trabalho de velocidade, o Karateca deverá fazer a recuperação completa após cada série de esforços.

Embora o treino da Força no Karate seja por vezes executado com alguns receios, ele é de facto necessário, desde que bem orientado e doseado. Os principiantes deverão começar com exercícios de desenvolvimento geral, para a criação de bases para futuros rendimentos, passando mais tarde para os exercícios especiais, já com relação directa aos gestos de Karate e finalmente (depois de caracterizada) e se o desejarem, aos exercícios de competição.

Será sempre importante saber quais os grupos musculares que são solicitados com mais frequência nos gestos e nas acções específicas, e quais as formas de manifestação de força que no Karate têm um papel preponderante e que interessa educar de modo especial.

A terminologia desportiva diferencia três tipos de força dinâmica: Força Máxima, Força Rápida (Potência) e Resistência de Força. No Karate, onde os movimentos rápidos representam um factor decisivo, a Força Rápida (explosiva) é a mais importante. No entanto, um trabalho de duração da Força (Resistência Muscular) deve ser efectuado anteriormente, pois é a base para o desenvolvimento da Força Rápida.

Nas actividades de combate e no caso particular do Karate, interessa analizar o tempo de duração das provas, dos exercícios, combates, etc, e qual o volume e a intensidade que poderão atingir. De facto, realizam-se acções muito intensas mas curtas e na maioria dos casos seguidas de uma interrupção. este pequeno intervalo entre acções, irá permitir uma recuperação quase completa das fontes de energia envolvidas. Daí, resulta que ao treino da resistência aeróbia, deverá seguir-se aquele que é o mais importante para os aspectos do combate: o treino da resistência anaeróbia aláctica, facilitando desta forma a repetição de acções rápidas curtas e de grande intensidade).

O Metabolismo Anaeróbio Aláctico utiliza a fosfocreatina para repor o ATP (Adenosina Trifosfatada) que é gasto. Este processo mantém-se activo entre 12 a 14 segundos a partir dos quais a ressíntese do ATP vai sendo mais lenta e o músculo vai contrair-se mais lentamente.

A Flexibilidade é a capacidade de realizar movimentos articulares o mais amplos possíveis, embora nunca separada da elasticidade dos músculos, ligamentos e tendões.

Algumas posições típicas de alongamento muscular, tiveram a sua origem no Yoga indiano. Na China, documentos antigos falam de uma forma de ginástica equivalente à ginástica moderna. Na Tailândia, estátuas velhas de 2000 anos representam personagens em posições e em exercícios de extensão.

Estudos, investigações e estatísticas realizadas ao longo dos anos, concluem haver uma relação estreita entre uma musculatura encolhida, encurtada e tensa e o aparecimento de lesões.

Há muita gente que pelo seu modo de vida, reduziu os seus movimentos articulares e musculares, isto é, já fixaram os seus padrões de movimentos. Esta situação produzirá (para além de outras) gradualmente uma diminuição da capacidade de extensão das estruturas que permitem a flexibilidade: músculos, tendões, ligamentos, cápsulas articulares, etc.

No Karate, o treino contínuo da flexibilidade, é a condição elementar que irá permitir a facilidade de execução de movimentos técnicos de qualidade e prevenir lesões (um músculo demasiado curto, quando é vigorosamente estendido pode sofrer uma lesão). Para além disso, como elemento de boa saúde, ajuda a um melhor conhecimento do próprio corpo (consciência corporal) e dá uma sensação relaxante e de bem estar.

Na Distância entre dois praticantes, há que considerar o comprimento de cada segmento corporal, a parte que toca e o alvo. Se a distância é demasiado longa (para o ataque) perde-se o equilíbrio, a técnica sofre uma quebra e existe uma oportunidade para o contra-ataque.

Se a distância é demasiado curta, a técnica não terá oportunidade de atingir a sua velocidade máxima, o momento é curto, logo a técnica não será efectiva. Os factores que podem condicionar a distância são: características físicas, distância individual, técnica usada, posição, movimentação. O sentido da distância desenvolve-se durante o Kumite.

O Timing define-se como o momento oportuno (adequado) para a execução de uma técnica. Alguns desses momentos surgem quando um dos praticantes se prepara para atacar, acabou o seu ataque, pensa retirar-se, recua, acabou uma acção, perde a sua concentração, o equilíbrio, muda de posição ou desvia o olhar. Os momentos oportunos adquirem-se no treino de Kumite.

Controlar um ataque significa parar um gesto ofensivo a uma distância mínima do alvo.

As faltas de controle darão sempre lugar ao aparecimento de situações que nada têm a ver com a finalidade da prática. Por isso, nunca serão demais as chamadas de atenção para o controle das acções e emoçoes ao longo de qualquer treino.

O controle não se adquire instantâneamente. Para o dominar, há que repetir em grande número, todos os gestos técnicos de ataque, com um parceiro fixo e depois em movimento.

Aos praticante siniciados, deverá exigir-se uma paragem do gesto ofensivo a uma distância mais afastada do corpo do seu parceiro de treino; levá-los gradualmente do gesto lento para o rápido, da distância maior para a menor, dos recuos para os avanços, enfim, do fácil para o difícil numa tentativa sempre continuada de aquisição do controle suficiente que lhes permitirá uma prática mais hábil.

A Esquiva (tai-sabaki), é uma forma de utilizar o corpo. É difícil descrever o tai-sabaki, mas é conveniente saber que nele se encontra um dos pontos importantes do Karate. Se a postura é má, é difícil executar um bom tai-sabaki. Não é um movimento espontâneo, é necessário adquiri-lo.

A Táctica, é um aspecto importante no Karate. Pode definir-se como "actividade premeditada e inteligente de agir" que permitirá superar uma situação determinada. A táctica envolve a totalidade das acções de um praticante e inclui os aspectos técnicos, físicos e mentais. É baseada no conhecimento de ambas as partes e na aplicação dos meios disponíveis (em condições variadas) no momento oportuno. Para a implementação de qualquer "modelo táctico", é importante que o praticante possua capacidades cognitivas e intelectuais elevadas, ideias claras, experiência, recursos amplos e saiba eliminar os riscos inúteis.

Makiwara - peça de madeira vertical cravada no chão, mas flexível, forrada na extremidade superior por um entrançado de folhas de arroz secas.

Existem duas concepções diferentes na sua utilização.

Para uns, a finalidade desse aparelho é a de endurecer as mãos, os cotovelos e os pés, e prepará-los assim para os testes de quebra, ou de melhorar a potência das técnicas na altura do impacto. Para outros, serve para saber conduzir e desenvolver a sua energia no momento do impacto, isto é, chamá-la para a mão, e não partir ou endurecer nada.

A prática do endurecimento das mãos no Makiwara é introduzida em Okinawa por Sokon Matsumura. Esta inovação e adaptação, com algumas alterações ao Karate, é provavelmente trazida do Japão, onde Matsumura estuda a arte do sabre (durante dois anos) na escola Jigen-Ryu e Satsuma.

Nas escolas de sabre, as técnicas de corte - Tameshi Giri - eram praticadas em pequenos molhos de palha (Wara) de arroz enrolados (Maki) e colocados na vertical, servindo para testar a perícia de corte dos executantes. A adaptação do Makiwara ao Karate é feita com base nesta observação, servindo naturalmente para testar o efeito dos impactos e endurecer as mãos, pés, cotovelos, etc.

Em Okinawa, o Makiwara original era de Bambú, preso ao solo (e não encostado a paredes), muito "souple" e flexível. Se se batia muito forte, dobrava-se para trás e por vezes partia-se.

O retorno de vibrações, lesões dos nervos da mão, fractura dos ossos dos pés e das mão, modificações estruturais protectoras e aparição de durões sobre as articulações, são algumas das consequências, pouco saudáveis (quando se utilizam Makiwaras fixos a paredes), da má utilização de um utensílio necessário e útil ao treino.