Oi-Tsuki

Em Janeiro de 1987, o Mestre Harada dirigiu um Estágio em Paris, que foi organizado pela Federação Francesa de Karate. O Estágio era aberto a todos os diferentes estilos. Eu assisti ao Estágio e gostaria de contar um episódio que lá decorreu.

Num dia em que estávamos a praticar Oi-Tsuki, o Mestre Harada subitamente parou e dirigiu-se a um grupo de 5 cintos negros: “O vosso Oi-Tsuki não é forte o suficiente. E posso provar-vos isso”. Um dos cintos negros perguntou-lhe então: “Está a dizer-me que o meu Oi-Tsuki não é forte?” “Exacto”, respondeu Mestre Harada, acrescentando: “Para lhe provar isso, pode atacar-me ao nível Chudan. Eu não irei defender. Irei receber o seu ataque. Faça o seu melhor”. O Mestre dirigiu-se um pouco para o lado e parou em Hachiji-Dachi.

Naquele momento podíamos ouvir vozes sussurrantes, mas assim que o cinto negro se colocou em Zenkutsu-Dachi, preparado para atacar o Mestre Harada, houve um silêncio absoluto.

O cinto negro olhou para o Mestre Harada e subitamente atacou-o com um forte Oi-Tsuki ao nível Chudan. O Mestre recebeu o Tsuki sem sequer alterar a sua posição. E olhou o cinto negro que tinha acabado de o atacar e que se encontrava à sua frente.

Em volta do Mestre Harada estava um grupo de cerca de 200 pessoas que não acreditavam nos seus olhos. Pela expressão das suas caras, penso que todos esperavam um resultado muito diferente. Provavelmente pensavam que o Mestre cairía para trás ou que ia dobrar os joelhos e cair para a frente. Passaram mais alguns segundos silenciosos “irritantes” e de repente, para surpresa de todos, o Mestre Harada disse: “Como pode ver eu estava certo. O seu Oi-Tsuki não é forte o suficiente para mim. Agora vou ajudá-lo a conseguir um Oi-Tsuki forte.”

Algum tempo antes, em Portugal, o Mestre Harada já me tinha explicado a diferença entre um Oi-Tsuki forte e um fraco. Ele disse-me: “Algumas pessoas, quando fazem Oi-Tsuki, tentam sentir nos seus próprios corpos uma sensação de força. Assim, ficam convencidos que o seu gesto foi forte. Esta sensação vem da contracção que fizeram e da energia que têm dentro delas próprias. Às vezes até por causa do “click” da manga do kimono. Por vezes, quem assiste, e não tem qualquer conhecimento de Karate, fica com a sensação que aqueles Tsukis são muito fortes. Quando se executa um bom Tsuki não devemos ser nós a senti-lo no nosso corpo. Quem o deve sentir é a pessoa que o recebe. Apenas essa pessoa pode dizer o valor daquele Tsuki.”

Cada vez que o Mestre Harada nos mostra alguma coisa fora do comum, ele diz-nos: “Se eu consigo, vocês também vão conseguir, mas não esperem resultados imediatos. Pratiquem, escolham um bom parceiro, e pouco a pouco vão aproximar-se…”

No segundo Estágio em Portugal, quando o Mestre me pediu para o atacar, senti a sua mão a tocar-me e perdi o equilíbrio para o lado, e pensei: “Isto é diferente de tudo o que alguma vez senti. Gostaria de um dia ser capaz de fazer o mesmo.”
Durante esse Estágio falei com o Mestre acerca do impacto que tinha sentido. Fiz-lhe várias perguntas acerca do assunto e ele disse-me: “Primeiro tens de melhorar a tua posição. Descontrair os ombros. Nunca esqueças que o salgueiro é flexível porque tem raízes fortes e profundas. Escolhe um bom parceiro e pratica.”

Passei os seis meses seguintes a tentar exactamente isso. Alinhava 10 ou 15 alunos à minha frente. Então eles atacavam-me. E de cada vez que um deles atacava eu pensava: “Descontrai. Não te preocupes se o ataque te atingir, descontrai os ombros”. Nem uma vez tive sucesso.

No Estágio seguinte falei com o Mestre Harada acerca do que tinha feito. Ele perguntou-me: “Em que pensavas enquanto recebias os ataques?” Eu respondi: “Eu não queria tentar a fundo. O meu pensamento dominante era não me preocupar se os ataques me atingissem e esperava que “alguma coisa” acontecesse.” A isto o Mestre respondeu: “Não, não é assim que deves pensar. Primeiro, cada vez que recebes um ataque, deves pensar por que é que falhaste. Deves analisar o teu corpo. Antes de defender, pensa acerca das partes importantes que estão envolvidas no processo. Depois pensa na distância e no timing. Para ter sucesso, deves considerar  tudo ao mesmo tempo. Ao princípio não é muito fácil. Começa passo a passo. Cada vez que sentes que uma das partes está bem, dedica-te à próxima e assim por diante. E usa a tua mente. A mente pode ajudar o corpo.”

Raul Cerveira

 

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