A importância das Reuniões de Instrutores


Por Sílvia Neves
1º Dan
APK

Reunião: s.f. acto ou efeito de reunir; junção; fusão; união;
conjunto ou agrupamento de pessoas; assembleia (…)
conjunto de elementos que pertencem a um (pelos menos)
dos conjuntos dos dados (De re+união).
in Dicionário da Língua Portuguesa (8.ª edição)
Porto Editora

Num sentido mais amplo, reflectir sobre a importância da realização de reuniões poderá passar, primeiro que tudo, por avaliar se vale a pena realizá-las, tendo em conta que esta actividade (que, porém, deve ser valorizada) tem implicações em termos de custos e de tempo. Muitas das vezes, as reuniões são desnecessárias por diversos motivos: ou porque se tornam uma simples rotina, ou porque demoram o dobro do tempo necessário, ou porque não dão os resultados esperados, entre outros.

No entanto, relativamente à realização das reuniões de Karaté, acreditamos que as mesmas são importantes. Elas devem fazer-se com objectivos, sendo produtivas (aplicando o termo “produtividade” às evoluções visíveis na nossa prática), de modo a atingir resultados.

A realização de reuniões de instrutores deve relacionar-se com preocupações de naturezas pedagógica, social, física e mental, que devem ser assumidas, ora por parte do instrutor-chefe, ora pelos outros instrutores. Como tal, a minha convicção pessoal é a de que estas reuniões são uma boa forma de garantir a qualidade do ensino do Karaté, na medida em que se transmitem ensinamentos, valores e regras de conduta, de maneira a unificar, a tornar coerente e a difundir (correcta e entusiasticamente) a nossa prática pelos demais clubes desportivos, preconizada por instrutores “activos”, pertencentes um grupo associativo, especificamente, a APK.

Relativamente aos instrutores, ainda que tenham tido acesso à formação especializada, que os preparou para adquirir as competências essenciais para o desempenho da função de instrutor, devem encarar as reuniões de instrutores como uma forma de actualizar os seus conhecimentos teóricos e práticos, não se deixando, portanto, limitar à formação ministrada pelo corpo federativo.

Por estes motivos, as reuniões de instrutores, além de proporcionarem um treino mais específico que promova mais qualificações e aptidões físicas, devem ser um espaço de partilha e reflexão. O que está em causa é um ensino de qualidade, adaptado a diversos contextos e situações.

Que objectivos poderão estar associados às reuniões de instrutores de Karaté?
Eis algumas propostas:

  • Desenvolver e actualizar os conhecimentos técnicos, teóricos e práticos relevantes;
  • Proporcionar aprendizagens comuns;
  • Partilhar ideias e discutir questões que respeitam a todos;
  • Aumentar o grau de pertença a um grupo associativo, contribuindo para a sua evolução ao longo do tempo;
  • Contribuir para a manutenção e desenvolvimento da prática;
  • Incentivar a investigação e o progresso individuais;
  • Gerar e proporcionar um clima de confiança e de respeito mútuo entre os instrutores, inclusivamente, relativamente à hierarquia formal que existe entre os mesmos;
  • Uniformizar os ensinamentos e valores transmitidos;
  • Criar gosto, motivação e sentido de responsabilidade pela prática;
  • Possibilitar a criação de actividades/eventos próprios, que resultem do trabalho colectivo dos instrutores;
  • Criar desafios aos membros do grupo;
  • Criar um espaço de convívio e de camaradagem.

Abordar a questão da importância das reuniões de instrutores de Karaté (incluindo estas momentos de reunião e de treino) passa também por esclarecer, igualmente, qual a missão de um instrutor de Karaté e quais as suas motivações para o ensino que ministra e para a sua prática.

Mas, como qualquer aluno ou qualquer trabalhador, os instrutores também necessitam de encorajamento e motivação, de forma a conseguirem fazer o seu melhor. Têm de se sentir apoiados e ser ajudados a fazerem um bom trabalho. Por isso, há que haver um investimento e acompanhamento efectivo, juntamente com um feedback positivo e construtivo, de forma a evitar hábitos e comportamentos incorrectos.

Nem todos são naturalmente bons naquilo que fazem. Alguns terão e demonstrarão maiores capacidades. No entanto, nada se consegue sem a prática e trabalho constante; portanto, o próprio instrutor deve manter uma atitude permanente de questionamento e reflexão, procurando ser sempre melhor e estar em permanente evolução, não se deixando cair em vícios e hábitos que apenas conduzem a um declínio pessoal e profissional.

Já referimos que um instrutor, seja de que nível for, tem responsabilidades e deve possuir algumas competências, como por exemplo: ter a capacidade de demonstrar técnicas, explicando os princípios por detrás das mesmas; observar e acompanhar os alunos, fornecendo-lhes feedback acerca do seu progresso; certificar-se pela saúde e segurança dos seus praticantes; possuir um bom conhecimento, bem como a habilidade suficiente para ensinar; ter boas capacidades comunicativas; ter entusiasmo e habilidade para inspirar as pessoas para a prática; demonstrar uma abordagem correcta face aos seus alunos; ser organizado e disciplinado; estar em forma física, etc. Ele lida com pessoas, sejam elas de que nível etário for, logo, precisa de estar preparado.

O instrutor deve ser (e deve ter) um exemplo a seguir, pois pressupõe-se que possua um conjunto de características que o distinguem dos demais praticantes. Se assim não fosse, qualquer um poderia ensinar. Para tal, não é necessário apenas boa vontade. Há que tentar ser possuidor da competência necessária para instruir, para ensinar. Há que sentir e viver a missão de ser instrutor. Tal deve suceder com qualquer agente do ensino, seja de que matéria for.

Por conseguinte, o acesso à função de instrutor deve ser, pois, limitado. Há que saber quais os motivos que levam aquela pessoa a querer ensinar Karaté e se, de facto, quer esforçar-se por ser um grande Mestre, ou um grande professor… Embora não nos detenhamos aqui sobre este assunto, julgo que é importante não confundir as “denominações”.

O instrutor de Karaté só se desenvolve se houver desenvolvimento na própria prática, se existir um domínio pessoal da prática colectiva das actividades e das técnicas.

As práticas isoladas acabam por não ter expressão e impacto, sendo que as contraditórias só fazem regredir no caminho que deve ser seguido. É por isso decisivo que haja um projecto colectivo, que ao ser criado e implementado, provoque um sentimento de pertença e a assunção de determinados princípios e valores colectivos, em detrimento de interesses pessoais.

Partindo destes pressupostos, as reuniões de instrutores poderão ser um incentivo para a conservação da referida “re+união”. Sinteticamente, devem, assim, conduzir ao aumento da qualidade de instrução, criando, também, condições para melhorar o nível colectivo dos responsáveis pelo ensino e, consequentemente, um maior comprometimento pessoal por parte dos mesmos. Está em causa aumentar os benefícios da NOSSA prática.

Pessoalmente, acredito que ter em conta tudo o que foi referido, passa por afirmar que vale pena fazer reuniões de instrutores. Caberá a cada um julgar essa importância e aquilo que dela faz.

<<voltar a Artigos