Já passaram 30 anos...

Em 1972 conheci o Mestre Harada em Paris, num pequeno café situado à esquina da Rue Mercoeur. Estava acompanhado do seu aluno francês, Bernard Mathieu.

Tinha acabado mais um dia de estágio com o Mestre Murakami e dirigi-me a esse pequeno café, situado muito perto do "Dojo", para beber qualquer coisa fresca. Achei estranha a presença de um japonês ao balcão. Passado algum tempo, chegou o Mestre Murakami e fiquei espantado quando me apresentou o japonês dizendo-me que era o Mestre Harada. Disse-lhe que eu tinha vindo de Portugal. O Mestre Harada começou a rir-se, e colocando ambas as mãos nas bandas do seu casaco, bateu com os saltos dos sapatos no chão dizendo: "Oh! Portugal, fandango!" Depois, já mais sério, cumprimentou-me. Trocou algumas palavras em japonês com o Mestre Murakami e de seguida saiu acompanhado do Bernard.

Só muitos anos mais tarde (em conversa com o Mestre Harada), compreendi a sua presença naquele lugar e o facto de não ter estado connosco no treino. "Alguém" lhe tinha indicado mal o horário do estágio. Penso que de propósito, e ele estava no café à espera do início do treino.

O primeiro estágio do Mestre Harada em Portugal foi em Maio de 1979. Nessa altura tivemos a oportunidade de o ouvir falar e explicar muitas coisas sobre a história do Karate em geral e do Shotokai em particular.

Para a maioria dos alunos presentes nesse estágio, os assuntos de que falou e que confirmava com nomes, datas e acontecimentos eram novidades...

Nessa altura (1979) desmistificou muita coisa, disse muitas verdades. Alguns praticantes do nosso grupo ficaram perplexos, incrédulos e pensativos. No fim desse estágio e em privado, disse-me: "Raul, a minha conversa pode ter chocado muita gente, mas o que eu disse foi a verdade e a verdade tem que ser dita".

Na parte técnica desse primeiro estágio fazia por vezes perguntas sobre alguns aspectos da nossa prática anterior às quais os alunos não respondiam. Nessa altura o Mestre Harada dizia-lhes: "Vocês fazem Karate mas não sabem Karate".
Ao longo dessa semana, provou-nos que: As nossas posições muito baixas e compridas não eram fortes; que com 80 a 90% do peso do corpo sobre a perna da frente dificilmente poderíamos usar essa perna; que não dávamos importância ao valor do pé de trás, pois nos ataques ou defesas esse pé não ficava fixo, era arrastado; que não tínhamos uma noção forte do alvo e um conhecimento correcto da distância.

Antes do contacto com o Mestre Harada, a distância era algo que não era verificado nem testado (normalmente usávamos a mesma), e não lhe era dada a devida importância.

Hoje é constantemente levada em conta, pois é um aspecto muito importante da nossa prática.

O nosso conceito de defesa também foi alterado. Para nós, defender é evitar que o ataque nos toque. Se, por qualquer razão, o praticante se atrasa, vai defender na forma e na ideia de "parar o ataque", sem "bater" no seu parceiro. Para ter sucesso tem que estar estável na sua posição, aquando da utilização das diferentes técnicas. Antigamente, para as defesas, costumávamos unicamente utilizar o osso do ante-braço e então bloqueávamos a articulação do nosso cotovelo. Hoje, usamos a almofada da mão (Tettsui) e deixamos o cotovelo e o ombro do mesmo lado livres. Temos também um método para fortalecer os nossos pulsos e os músculos do ante-braço, fazendo em simultâneo alguns exercícios respiratórios e assim alargar o nosso campo de consciência.

Para evitar que o ataque nos toque, precisamos de mobilidade. Mas fazendo isso, podemos ficar à mercê de um novo (seguinte) ataque. Assim, é importante saber esperar pela oportunidade certa, avaliar os ataques do parceiro e decidir se devemos parar o nosso corpo, fixar a perna de trás, termos o punho forte e reagirmos com uma técnica, ou "pararmos" o nosso oponente. É importante também observarmos o timing e a distância. Só depois de considerarmos todos estes elementos, é chegada a altura de agirmos.

Alguns momentos antes de começar uma defesa, quem tocar no corpo do Mestre Harada, terá sensações musculares de energia que o atravessam, sem interrupções, até alcançarem a sua mão - a parte do seu corpo, que está a usar para tocar na pessoa que estava a atacar.

Outras vezes, de forma muito rápida, ele vai buscar a energia ao ataque e deixa-a ir através do seu próprio corpo até atingir o chão. Trá-la de volta ao seu opositor com uma reacção e impacto inacreditáveis. Então diz-nos: "Eu não bato! Tudo o que faço é parar o ataque. Contracção e concentração são coisas diferentes."

Depois de 30 anos de prática com o Mestre Harada, o nosso aperfeiçoamento e progressos foram espantosos. Antes de o conhecermos, era absolutamente impensável influenciar tanta gente e despertar o seu interesse pela nossa prática.

O conhecimento foi-nos transmitido, ano após ano, com grande qualidade técnica, esforço e dedicação. Aprendemos a sabedoria necessária.

Os Karatecas da minha geração têm imensa sorte de terem um MESTRE assim e de terem a oportunidade de seguirem de perto o seu CAMINHO.

Raul Cerveira

 

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