Entrevista

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São cinco pessoas diferentes que praticam Karate-Do Shotokai há muitos, muitos anos. Cada um evolui ao seu ritmo. Cada um treina e progride em função das suas próprias capacidades. O espírito de amizade que reina neste grupo e a contribuição que o Karate tem dado para a saúde e para o equilíbrio físico e mental de cada um, são os factores que motivam a presença destes Karatekas nos convívios e nos treinos regulares.
Pertencem a um grupo de "cabelos brancos" que são para os mais jovens uma fonte de motivação, pela sua presença, pelos bons hábitos e valores (aos quais são fiéis) e pela dedicação à APK e ao Karate-Do Shotokai.

 

António Martins Fernandes

72 anos. Empresário reformado

Início em 1969 na Academia de Budo. Continua em 1972 no J.C.P.

1º Dan em 1981. 2º Dan em 1995. 3º Dan em 2006

 

Dr. Artur Mateus

68 anos. Médico Militar, General na reforma. Mantém a actividade profissional privada.

Início em 1971 no J.C.P.

1º Dan em 1996. 2º Dan em 2006.

     
 

Arlindo Tadeu

62 anos. Reformado da Função Pública

Início em 1976 no J.C.P.

1º Dan em 1987. 2º Dan em 2006.

 

Vitor Cardia

61 anos. Reformado do Comércio

Início em 1999 no J.C.P.

1º Kyu em 2006.

     
   

Manuel Guedes dos Santos

63 anos. Reformado da Indústria Hoteleira

Início em 1976 no J.C.P.

1º Dan em 1991. 2º Dan em 2006.


Pergunta: Como foi o vosso início no Karate?

António Martins Fernandes: Comecei primeiro no Judo, porque não havia ainda Karate. Assim que o Karate-Do apareceu na Academia de Budo comecei logo. Creio que os filmes do Bruce Lee me influenciaram. Depois as ideias vão mudando e os objectivos que tenho hoje já não são os mesmos que tinha há 30 anos. Depois, em 1972, passei para o Judo Clube de Portugal e cá fiquei até hoje.

Dr. Artur Mateus: Comecei a praticar Karate-Do Shotokai em 1971 no Judo Clube de Portugal, ano em que a modalidade foi implementada no Clube. Em criança não pratiquei qualquer desporto, o Karate ainda não havia sido divulgado em Portugal, o que só veio a acontecer no início dos anos sessenta. Como adolescente já dava uns "pontapés na bola" em 1956/57, como Júnior da Académica de Coimbra, assimilando também através deste desporto hábitos de companheirismo e princípios de disciplina e respeito pelo adversário.

Arlindo Tadeu: Iniciei a minha prática de Karate-Do em Maio de 1976 no Judo Clube de Portugal. Pelo facto de ter sempre praticado desporto, achei por bem iniciar-me nesta arte marcial que para mim era totalmente desconhecida. Quis pôr à prova algumas ideias pré-concebidas e avaliar até que ponto um indivíduo de estatura média e frágil como eu, seria capaz de enfrentar outras pessoas com estaturas muito superiores.

Vitor Cardia: Comecei a praticar em 2000 no Judo Clube de Portugal. Sentia necessidade de praticar algo que me fizesse sentir melhor tanto fisicamente como psicológicamente. Depois de me aconselhar com diversas pessoas, antigos praticantes de Artes Marciais, optei pelo Karate-Do Shotokai dirigido pelo Mestre Raul Cerveira. Com a idade com que comecei (depois dos cinquenta anos), poucos acreditavam que me mantivesse em actividade de forma continuada. Após verificarem que eu continuava sem interrupções, é gratificante sentir o apoio e a admiração que os meus companheiros de treino sentem pela minha dedicação.

Manuel Guedes dos Santos: Iniciei a minha prática, no âmbito do Karate-Do Shotokai, aos trinta e dois anos. Estávamos no ano de 1976, o mesmo em que as salas de cinema, de Lisboa, acolhiam uma grande novidade: Bruce Lee.
Repetiam-se sessões e espectadores. Eu era um deles. Tinha nascido a minha paixão pelas Artes Marciais. Não pensei duas vezes - ao contrário das sessões cinematográficas que repeti - e inscrevi-me no Judo Clube de Portugal.
O actor principal passou a ser outro, que não o meu herói; mas é o mesmo que se mantém até hoje, e a quem eu continuo a reconhecer grande profissionalismo e competência. O seu nome é Raul Cerveira. Ligam-nos, desde então, o Karate, uma relação de respeito e uma relação de amizade.

Pergunta: A evolução, os benefícios, o que foram sentindo ao longo de tantos anos?

A. M. Fernandes: Os benefícios são não ter aquilo que as pessoas da minha idade têm (de um modo geral), tensão alta, osteoporose, diabetes, inactividade, peso a mais, etc.
Continuo a praticar porque me sinto muito bem e o Karate-Do dá-me a sensação que a idade não me "atinge". Isto é uma avaliação que eu faço relativamente às pessoas da minha idade que conheço e que estão "paradas", sem nenhuma actividade física.

Dr. A. Mateus: Ao longo de todos estes anos de prática regular fui sedimentando uma preparação física continuada, uma disciplina mental, contribuindo para um bem estar anímico, a sedimentação de amizades adquiridas, consolidadas e reforçadas no Dojo e agora, como que um regresso à juventude, ao treinar com companheiros mais novos a quem se transmitem conhecimentos que a nossa longa experiência aconselha.
A força, a velocidade, a resistência, a perfeição técnica vão regredindo com a idade, mas não a vontade de treinar e, em cada treino, em cada estágio, a cada momento, dar o nosso esforço com generosidade, obtendo em troca uma compensação acrescida de tranquilidade e bem estar físico que se reflecte na envolvência familiar, profissional e social.

A. Tadeu: Os benefícios foram muitos, tanto a nível físico como a nível psicológico e também comportamental. Foi como ter plantado uma árvore. Sabemos que temos de esperar alguns anos, para depois se poderem colher os frutos. Nesse aspecto, os frutos que já colhi foram-me muito úteis.

V. Cardia: Como anteriormente referi a prática do Karate-Do trouxe-me mais segurança, mais auto-confiança, enfim, tornou-me psicologicamente mais forte.

M. G. Santos: Não tem sido uma tarefa fácil igualar-me ao meu herói. Pensando bem... acho que nunca o pretendi; pelo menos, a partir do momento em que passei a compreender o alcance desta arte.
Emocionalmente, tornei-me uma pessoa mais forte, mais equilibrada. Persistente. Seguro perante situações mais arriscadas.
Passaram os anos. Com o Karate, mudei os meus hábitos, melhorei a minha qualidade de vida. Consegui, também, alcançar uma graduação que me deixa satisfeito, pois apesar da dedicação à arte, creio ser objectivo de qualquer praticante atingir o tom mais escuro, da gradação de cores que compõem e embelezam os quimonos. Sobretudo, porque a Associação Portuguesa de Karate-Do apenas atribui este diploma a quem reconhece a compreensão das cinco máximas. A saber: esforço, autocontrolo, etiqueta, carácter e sinceridade.
Sendo verdade que o mereço, é para mim um motivo de orgulho. Uma verdadeira recompensa.

Pergunta: Que conselhos dão a um jovem que queira iniciar-se no Karate?

A. M. Fernandes: O conselho é praticar sem desanimar, porque o Karate-Do não é aquilo que vemos no cinema. Escolham um bom professor. Depois, para se obterem resultados (técnicos, físicos, mentais, etc.), é necessário trabalhar muito sem desanimar.

Dr. A. Mateus: Para um aperfeiçoamento contínuo é necessário Esforço, que é precisamente um dos cinco princípios básicos do Karate-Do. Carácter, Sinceridade, Autocontrolo e Etiqueta, são os outros princípios orientadores desta Arte Marcial aos quais podemos acrescentar a Humildade, e que devemos ter sempre presentes. Depois, suor, suor...

A. Tadeu: Por tudo aquilo que passei e recolhi, incitarei qualquer jovem a praticar Karate. Irão recolher mais tarde tudo aquilo que eu já recolhi. Serão jovens mais fortes, mais bem formados, equilibrados e mais bem preparados para uma vida difícil. Serão sempre mais saudáveis e a prática do Karate-Do dar-lhes-à uma grande tranqulidade para enfrentarem os períodos menos bons da vida.

V. Cardia: Tentarem não "queimar" etapas. Subirem degrau a degrau, sempre com a ideia de que a aprendizagem nunca termina.

M. G. Santos: Aos jovens que optem por praticar Karate sugiro que perspectivem esta modalidade como uma arte.
Sonhem como eu. Ambicionem. Mas sem pressa.
Ouçam os vossos Instrutores pois são Mestres neste engenho.
Entreguem o vosso corpo. Disciplinem a alma. Fortaleçam o carácter, pois o Karate prima por desenvolver a componente humana através do treino físico. Naturalmente surgirão os cintos, num tom cada vez mais escuro; o progresso; o conhecimento; e ainda, a ambição de nos sentirmos cada vez mais completos.

Aos outros, e porque a paixão pode surgir em qualquer idade, deixo-vos as mesmas sugestões; no entanto, talvez faça acrescer ainda mais uma... a saúde. E neste sentido, mantenham-se prudentes, pois há episódios que podem marcar o nosso percurso, e em que este factor é determinante.

Neste sentido, tomo a liberdade de partilhar convosco um episódio que marca, com certeza, o meu percurso enquanto praticante, e em que a minha mente resolveu prescindir do corpo e da dor física, em prol da Arte. Parece-me bem. É bonito. Digno de um herói do cinema. Pois, o problema é que nós somos mais humanos do que heróis.
Certo dia, enquanto frequentava um estágio - como aluno proposto a exame para segundo Dan - um adversário desferiu um arrojado Mae-Geri sobre mim, o qual não defendi eficazmente, e de acordo com os ensinamentos do meu Mestre. Resultado: um estalo acompanhado de uma dor aguda. O meu corpo avançava mas o braço teimava em não me acompanhar.
Assistido, de imediato, por um médico - também ele praticante e presente no estágio com a mesma pretensão que eu - perecbi que a minha próxima etapa era mesmo seguir até ao Hospital mais próximo, envergando um quimono aberto e o meu cinto a prender-me o braço. Tinha um braço partido. Surge então um dilema: ficar a ser operado, de imediato, ou voltar para o local de estágio e tentar alcançar o meu segundo Dan.
Escolhi a última opção. Irresponsável? Ambicioso? Ou será que estava a ver o momento para o qual tinha trabalhado tanto acabar repentinamente entre batas brancas e radiografias?
Não fui um pretendente a herói. Não o sou. Fui irresponsável e acreditem que senti mesmo angústia, no dia a seguir, a caminho da mesa de operações. Mas naquele momento, por mais que o médico - curiosamente também ele praticante de Karate - me dissesse "Fique!", o meu braço quis regressar - adormecido e devidamente engessado - ao local de estágio, deixando para trás o médico com as mãos na cabeça.
Tive os meus cinco minutos de fama e ainda tenho a placa metálica no braço.
Não sou, de facto, o herói do cinema. Mas o mais importante ainda não vos contei... tenho o conforto do meu segundo Dan. Passei no exame.

 

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