José Paulo Abrantes Simões nasceu em Lisboa em 1937. Iniciou-se no Karate na Academia de Budo em 1964 com 27 anos de idade. Obteve o Cinto Negro - 1º Dan em finais de 1966. Pode considerar-se um pioneiro da modalidade.
Profissionalmente, como visualizador publicitário, foi uma figura muito conhecida e altamente respeitada.
Pergunta: José Paulo, quando foi o teu primeiro contacto com o Karate?
José Paulo: Foi nos finais de 1964. Soube que havia aulas de Karate na Academia de Budo, fui lá e fiz a minha inscrição.
Pergunta:Nessa altura quem dava as aulas?
J. P.: As aulas eram dadas pelo Dr. Pires Martins e tinham a duração de 10 a 15 minutos, depois de uma clássica aula de Judo.
Pergunta:Então para fazeres Karate, tinhas que fazer primeiro Judo...?
J. P.: O Judo que eu fazia no Judo Clube não me entusiasmava. Eu vinha do Pugilismo e o Karate dizia-me muito mais. Pouco tempo depois o Dr. Pires Martins separou as aulas de Judo das aulas de Karate. A partir daí as aulas foram dadas pelo Ceia, juntamente com o Raul, o Rebola e o Gueifão.
Pergunta:Nessa altura, como eram as aulas?
J. P.: As aulas nessa altura eram essencialmente técnicas. Tentávamos passar aos alunos os nossos conhecimentos adquiridos através de livros, de filmes e mais tarde de estágios. Estávamos todos muito interessados no apuramento técnico mas para avançarmos a partir dali já seria necessário alguém com conhecimentos mais evoluídos, mais práticos. aulas inteiras de Katas ou de Oi-Tsuki e Mae-Geri, acabaram por "atrasar" um pouco a evolução do Karate, que foi recuperada quando os grandes Mestres passaram a vir a Portugal dar estágios. Nessa altura eu já não era praticante.
Pergunta:Também visionavam filmes Japoneses?
J. P.: A partir de uma certa altura começámos a visionar, numa moviola, uns filmes japoneses de Karate Shotokan. Os filmes eram praticamente visionados de fotograma em fotograma, eram de grande qualidade. Deram-nos uma nova dimensão do Karate. Continham técnicas de Karate executadas pelos (na altura) jovens Nakayama, Kanazawa, Enoeda, Kaze e Shirai. Há 44 anos atrás, posso dizê-lo, aquela moviola e os filmes foram o meu primeiro "Mestre".
Pergunta: Como era o ambiente?
J. P.: O ambiente era excelente. Tanto entre nós (instrutores) como entre nós e os alunos. Já me tem acontecido ser abordado por pessoas, que para mim são desconhecidas, e que me dizem terem sido meus alunos na Academia de Budo. Noto sempre uma certa ponta de amizade da parte deles.
Pergunta:Havia Karate feminino?
J. P.: O Karate feminino era muito incipiente. Lembro-me de duas ou três raparigas, em alturas diferentes, mas desistiram rapidamente.
Pergunta: Que benefícios depois de alguns anos de prática...
J. P.: Tirei sempre benefícios da prática das Artes Marciais. Até na profissão. Tornei-me uma pessoa mais calma, paciente, determinada. Sou conhecido, profissionalmente, como alguém que nunca desiste, mesmo em face de uma dificuldade que parece intransponível. Isso devo-o à prática das Artes Marciais. É por isso que eu digo que não passei de 1º Dan de Karate mas cheguei a 10º na profissão.
Pergunta: Em 1966 foste a Paris...
J. P.: Fui a Paris fazer um Estágio de 2 semanas no Dojo do H. Plée. As diferenças entre mim e a esmagadora maioria dos praticantes menos graduados era, senão nula, pelo menos pouco significativa. Cometíamos os mesmos erros, eles alunos do Mestre Nanbu, que fazia parte do Estágio, e eu "aluno" da moviola.
Pergunta: De regresso, cheio de novidades...
J. P.: Quando cheguei a Lisboa, repeti o Estágio, segundo a segundo, com os alunos e Mestres da Academia que não tinham conseguido ir a Paris.
Pergunta: Sei que houve outra saída...
J. P.: Sim, houve. Em 1968 voltei a Paris para fazer outro estágio, mas por má informação em vez de Paris era em Saint Raphael e o tempo que perdemos tornou-o impraticável.
Pergunta: Nunca te convidaram para dar aulas?
J. P.: Na Academia de Budo, tentei por várias vezes convencer os meus colegas que essa opção estava fora dos meus projectos. Nada tinha e nada tenho contra quem queira fazer desta Arte Marcial um modo de vida, mas os meus planos, desde muito novo, levaram-me para outro rumo.
Pergunta: Em 1969 fizeste o primeiro Estágio com o Mestre Murakami?
Que diferenças sentiste em relação ao Karate que então se praticava?
J. P.: Acho que foi um erro da Academia de Budo ter proporcionado um Estágio com o Mestre Murakami. Em vez de um Mestre Shotokan a Academia fez vir, talvez por conveniência de preço, um Mestre Shotokai.
Haviam diferenças. Mas as poucas alterações que passámos a ter de fazer para nos incluirmos nos Estilo Shotokai, levaram-nos a alterar algumas técnicas e posições. Obviamente que não digo que foram alteradas para pior, mas que foram "um pontapé no nosso rabo" que nos atirou em grande parte para o princípio de tudo.
Quando a Academia de Budo contratou o Mestre Murakami para vir a Lisboa dar um Estágio, já o numeroso grupo de karatekas portugueses se achava dividido. Uns tinham seguido um karateka Sul-africano (creio que se chamava Ronald Clark) e tinham fundado uma outra escola na Parede; outros, como eu, permaneceram na Academia. Mais tarde fizeram-se estágios com Mestres Shotokan, e assim, nessa altura, Portugal ficou com duas escolas (Shotokai e Shotokan). Acho que teríamos todos a ganhar com a existência de uma só, mas isso era uma utopia. O Wado-Ryu e o Shito-Ryu já estavam a "bater à porta".
Pergunta: Porquê a tua saída da Academia de Budo?
J. P.: Foi durante o Estágio do Mestre Murakami que uma infeliz atitude do Dr. Pires Martins me levou a abandonar a Academia. No entanto, devo dizer que não foi só essa falta de compreensão que me levou a tomar tal atitude. A minha vida profissional tinha levado uma grande volta.
Pergunta: Era difícil conciliar?
J. P.: Sim. Apercebi-me que era incompatível com qualquer veleidade desportiva. Ou a profissão ou o desporto. Para minha grande pena tive de abandonar o Karate. Só muitos anos mais tarde, já perto da idade da reforma, voltei muito timidamente a fazer qualquer coisa.
Pergunta: Como foi?
J. P.: A minha rotina de trabalho não era compatível com a prática de qualquer desporto. Trabalho nocturno, fins de semana ocupados, horários incríveis que tanto podiam principiar às 7.30 da manhã como se estenderem muito para lá das 2, 3 da madrugada. Já a trabalhar em regime de "free-lancer" inscrevi-me à hora do almoço numa aulas de Step onde adquiri algum fôlego e rapidez que os anos tinham roubado. Por volta de 1990 iniciei uma aprendizagem de Tai-Chi, estilo Yang, que mantive 3 anos e que me fez muito bem. Recuperei algum tónus muscular e principalmente o gosto pelas Artes Marciais. Depois fui para o Ateneu com um colega aprender o Jogo do Pau. O Tai-Chi, o Jogo do Pau e o PaKua (parecido com o Tai-Chi mas em círculo e muito rápido) são as únicas Artes Marciais que ainda pratico quando a saúde, que se está a deteriorar, me permite.
Pergunta: Em Angola...
J. P.: Em 1973, estive seis meses em Luanda por conta da Agência de Publicidade onde trabalhava. Numa visita ao clube local de Karate, tive a oportunidade de lhes indicar 2 Técnicos que poderiam melhorar de forma signifcativa a técnica dos praticantes. Nesse sentido e algum tempo mais tarde, estiveram presentes num Estágio em Luanda o Carlos Pereira e o Frade.
Pergunta: Karate 1964 - Karate 2008. Qual a tua opinião?
J. P.: Pouco posso dizer sobre o Karate actual. Tenho um sobrinho praticante de Shotokan e é por ele que faço os meus juízos. Quando eu tinha 13 anos andava na Escola António Arroio; havia lá um Professor que nos dizia: "Leiam tudo o que puderem sobre desenho e técnicas de desenho e pintura. Mesmo que o livro seja mau há sempre algo a aprender."
Creio que na maior parte das Artes Marciais este espírito acabou por se perder. A técnica é aprendida mais ou menos superficialmente e depois vem a prática. Aprende-se uma combinação de 3, 4 ataques ou 2, 3 contra ataques seguidos de ataque e treina-se isso até à exaustão com o fito de conseguir pontos em competição. Mas as Artes Marciais são muito mais que competição. O Porquê, Como e Quando são muito mais difíceis de aprender, mas trazem muito melhores resultados que um excelentemente treinado Gedan-Barai, seguido logo de Mawashi-Geri. O ideal seria conciliar isso tudo. Mas será que alguém tem tempo para isso?
Mas sabem uma coisa? Tenho imensas saudades daqueles tempos do início do Karate com o Ceia, o Rebola, o Gueifão e o Raul a estudarmos passo a passo o mais pequeno pormenor.