Entrevista
com Paula Castro - 3º Dan APK
a
Paula, qual foi o teu primeiro contacto com o Karate?
Comecei a praticar Karate em Julho de 1982, tinha 15 anos.
Iniciei a minha prática no Grupo Desportivo do Banco Totta e Açores, através de uma amiga de família. Um dia, fui assistir a uma aula e a partir desse dia o Karate faz parte da minha vida até hoje.
Mas a minha iniciação não foi assim tão fácil, treinei às escondidas da família durante 4 meses. A minha mãe achava que o Karate não era desporto para meninas.
Anos antes, o meu irmão chegou a praticar Karate Shotokan, eu pedia-lhe para me deixar ir com ele, mas a minha mãe nunca deixou.
Só após o meu primeiro Estágio APK, com o Mestre Raul e o Mestre Harada, na Escola Secundária de Queluz, em Novembro desse ano, consegui arranjar coragem para contar à minha mãe que fazia Karate.
Com a promessa, da minha parte, de não descuidar os estudos, consegui a tão desejada autorização para praticar Karate.

Nessa altura (1982) havia muitas raparigas a praticar?
Não, as poucas raparigas que começavam a prática ao fim de pouco tempo desistiam.
Em 1982, o número era muito reduzido, chegámos a ser 4 ou 5 raparigas e nem sempre praticavam com regularidade. Lembro-me de muitas vezes ser a única rapariga nos treinos.
Ao fim de quatro anos de prática, fui cinto castanho e tirei o meu primeiro curso de monitor (3º grau), pela antiga CDAM. Recordo-me de sermos apenas duas raparigas no referido curso.
Na nossa Associação, até à presente data, temos 15 mulheres graduadas com cinto negro, e a praticar no momento 7, das quais 3 são instrutoras.
Apesar de o Karate continuar a ser uma actividade maioritariamente praticada por homens, e ao contrário de há 27 anos, hoje, a nível nacional, o Karate feminino tem já uma grande expressão.
Fala-nos sobre as tuas graduações e datas.
Fui 1º Dan em 12 de Novembro de 1988, 2º em 14 de Novembro de 1992 e 3º em 8 de Novembro de 1997, graduações dadas pelo Mestre Raul e Mestre Harada.
Desde 1982 até 1997, data em que fui 3º Dan, decorreu um período de 15 anos. Durante esse período, tive uma grande disponibilidade para praticar Karate, estava muito motivada e com a orientação do Mestre Raul, a minha evolução técnica deu um salto muito grande.
Mas foi a partir do 1º Dan que senti, pela primeira vez, que o Karate era mais do que tinha aprendido até então. Nessa altura, já tinha experimentado a competição a nível nacional, com o resultado de campeã nacional, em kumite feminino, na categoria de -53 Kgs, passado por um Campeonato da Europa, e a seguir tive oportunidade de participar num Campeonato do Mundo. Em termos competitivos, fiquei por aqui. Do pouco tempo que estive ligada à competição, ficou comigo uma experiência enriquecedora e uma visão do Karate desportivo a nível nacional e internacional.
Como a competição tinha sido um pequeno desvio no caminho, voltei à nossa prática tradicional e continuei a acompanhar o Mestre Raul, nos vários locais de treino.
A pouco e pouco, começo a ficar fascinada pela nossa prática. O Mestre Raul mostra-me um novo caminho a ser explorado.
Treinar com o Mestre Raul e a proximidade com o Mestre Harada, nos estágios, sempre que vinha a Portugal, tornaram-se, não só, na minha referência de prática, mas também na minha fonte de inspiração para continuar um caminho em que acredito até hoje.
1982-2009 (27 anos), algumas diferenças?
Muitas diferenças! Quando comecei a minha prática existia uma atitude e um espírito muito diferentes. O respeito pelo dojo, as saudações quando se entrava e saía do tapete, o respeito pelos mais graduados que eram uma referência, o treino com o parceiro, o treino de Ki-hon, a atitude no Kumite, etc.
Lembro-me do meu primeiro estágio em Queluz e mesmo dos que fiz a seguir, onde existia um grupo de cintos negros que se encontravam à parte e ajudavam o Mestre Raul com os iniciados. Para mim, aquele grupo de pessoas inspirava e cativava os mais novos. Disse para mim muitas vezes "um dia gostava de fazer parte daquele grupo".
A pouco e pouco essas pessoas foram saindo da prática pelas mais diversas razões, e o grupo desapareceu.
Existia um espírito muito forte, treinava-se com esforço, por exemplo, quando as pernas começavam a ceder, nos treinos de Ki-hon havia alguém que estava ao lado ou atrás e gritava "aguenta, não desistas". Havia um sentido de grupo e união muito grandes.
Hoje, apesar de se tentar manter alguns princípios, o facilitismo que foi sendo criado na nossa sociedade atingiu também o Karate, de alguma forma. As pessoas tornaram-se mais individualistas, a prática sem grande esforço, promove-se mais a quantidade à qualidade, o indivíduo que é cinto negro e ensina, rapidamente é Mestre.
Os princípios e os valores que fazem parte desta arte acabam, se nós deixarmos.
Shotokai, porquê?
Se me tivessem feito essa pergunta há 5 anos, diria que tinha sido por acaso. Pois quando o meu irmão começou no Karate, se a minha mãe me tivesse deixado iniciar, nessa altura teria ido para o Shotokan.
Hoje, olhando para trás, e porque não acredito em coincidências, só o Shotokai podia fazer parte do meu caminho.
Fala-nos do teu contacto com o Mestre Harada.
Falar do Mestre Harada, em termos pessoais, é o mesmo que pedir a alguém para falar do seu ídolo.
Como disse anteriormente, o Mestre Harada é uma das pessoas de referência na minha prática, e a minha proximidade só foi possível graças ao Mestre Raul.
Posso dizer que as oportunidades que tive em falar e estar com o Mestre Harada, deixaram em mim, sempre, uma marca muito especial.
A primeira vez que fui buscar o Mestre Harada ao hotel, a pedido do Mestre Raul, senti que era uma grande responsabilidade, além de ser uma grande honra. A indicação que o Mestre Raul me deu foi: "Não te atrases, o Mestre diz que uma pessoa que chega atrasada tem falta de sinceridade". Escusado será dizer que nunca me atrasei, e as palavras nunca as esqueci. Ainda hoje tento seguir este princípio.
O Mestre Harada é uma pessoa que admiro, não só pela sua dedicação ao Karate, mas também pela sua procura incessante e partilha entusiástica com aqueles que se interessam pela sua prática.
É uma pessoa com enorme sabedoria, tem histórias muito interessantes e muito sentido de humor.
As oportunidades que tive de estar com o Mestre Harada foram para mim, sempre de grande importância e um grande privilégio.

O Estágio de Wales foi o teu primeiro estágio internacional, como foi?
O Estágio de Wales realizou-se no fim de semana de 14, 15 e 16 de Novembro de 2008. Ir a Wales não foi a maior viagem da minha vida, mas foi até ao momento, a mais importante. Foi um prazer rever o Mestre Harada.
O trabalho durante os dois dias de estágio em que estive presente, foi muito interessante. Diferente do que é habitual, quando os ingleses vêm a Portugal, ou mesmo quando treinamos nas aulas. A maior diferença, para mim, foi no primeiro dia, duas horas de prática de treino livre. Após as boas vindas do Mestre, este deu a indicação que o treino era livre e que gostaria de ver o que tínhamos para lhe mostrar.
Penso que este tipo de treino seja habitual, pois, quando olhei à minha volta, independentemente da graduação e do trabalho que estavam a realizar, senti que cada um sabia o que procurar na sua prática.
Para mim, foi uma experiência muito interessante e que me fez reflectir sobre a minha prática pessoal e perguntar: o que treinar? o que procuro? o que devo melhorar?
Apesar da minha lesão logo no primeiro dia, uma ruptura parcial do tendão de Aquiles da perna esquerda, a cinco minutos do treino acabar, nada me impediu de estar e continuar o treino no dia seguinte, de três horas.
Todos me receberam muito bem.
Este estágio coincidiu com o 80º aniversário do Mestre. Para surpresa do Mestre Harada e na sequência do seu aniversário, a KDS internacional juntou-se e ofereceu-lhe uma TV plasma.
O Mestre ficou muito contente e agradeceu a todos. Para estrear a TV assistimos, em sua casa, à gravação da condecoração do Mestre pela Rainha Isabel II. Foi um momento especial. A seguir fomos todos para um jantar de convívio que estava preparado, onde a boa disposição e alegria de todos estavam bem presentes.
Benefícios da prática?
Se olharmos para o Karate enquanto actividade física, a sua prática é muito benéfica, melhora a flexibilidade, a força, a coordenação motora, os reflexos, o sistema cardio-respiratório, etc.
Os benefícios de uma actividade física são muitos. É essencial à nossa saúde na prevenção de doenças e promove o bem estar psicológico. Mas o Karate é uma arte oriental que vai além dos aspectos físicos, promove e desenvolve valores que se reflectem na formação e educação de quem o pratica.
No meu caso, a prática ao longo destes anos ajudou-me imenso na minha vida profissional e mesmo na minha formação enquanto pessoa.
As dificuldades que encontramos no treino, o esforço, a persistência necessária à prática, são factores que nos ajudam a desenvolver uma atitude positiva e força mental que ao serem transpostas para o nosso dia-a-dia, ajudam-nos a ultrapassar os obstáculos com que nos vamos deparando ao longo da vida.
Para mim, independentemente das motivações de cada um para a prática do Karate, o importante é que se consiga tirar do Karate os maiores benefícios que este oferece e se atinjam as metas que cada um se propõe, não esquecendo que o Karate é uma arte.
Para ti, o que consideras de mais importante na tua prática?
A consciência do corpo. Ter uma consciencialização do corpo é o trabalho mais difícil.
Penso que, de uma forma geral, olhamos apenas para o que é visível, por isso concentramo-nos apenas no treino exterior. O que não deixa de ser importante, mas não é tudo.
O primeiro trabalho é sem dúvida a forma, mas o trabalho seguinte é o domínio do corpo. Dominar o nosso corpo e usar a energia (Ki) em cada postura, é o trabalho não visível.
Quando conseguimos movimentar o nosso corpo descontraído e como um todo, os movimentos surgem suaves e fortes.
Experiências que tenhas tido com outros métodos ou estilos?
A única experiência que tenho para lém do Karate é a do Kendo (cerca de seis meses) há anos atrás, e agora estou a tentar iniciar-me no Tai Chi.
Como diz o Mestre Harada, numa entrevista: "Aikido, Kendo, Judo - as artes marciais têm muito em comum umas com as outras. Respeitamos todas. O mais importante é treinarmos e aprendermos uns com os outros. O estilo não interessa. O que funciona é o que é importante".
Estas palavras são para mim de grande importância, pois quando olho para a experiência do Kendo, embora muito curta, verifico que fiquei com alguns registos no meu corpo muito importantes. Ajudam-me, hoje, à compreensão da minha prática.
Tenho observado outras artes e não há dúvida que têm muito em comum com o Karate.

Gostarias de acrescentar mais algumas palavras?
Sim, de uma forma muito breve quero agradecer aos meus colegas karatekas, desde cintos brancos a cintos negros, que ao longo destes 27 anos me ajudaram e continuam a contribuir para a evolução da minha prática.
Aos meus Mestres, Raul Cerveira e Mitsusuke Harada, quero expressar a minha gratidão pelos ensinamentos que me têm dado ao longo destes anos.
<<voltar a Entrevistas