Karate-Do Shotokai
Entrevista
com o Mestre Raul Cerveira
Há 40 anos atrás (1969), o Karate-Do Shotokai dava os primeiros passos, com a realização em Lisboa de um estágio com um Mestre japonês, de nome Tetsuji Murakami.
Procuramos saber como tudo, ou quase tudo aconteceu, e como, ao longo de 40 anos, o Karate-Do Shotokai se desenvolveu.
João Pereira - Mestre Raul, como se deu o desenvolvimento do Karate-Do Shotokai após Academia de Budo (1964)?
Raul Cerveira – No sul do país, é de facto a Academia de Budo a primeira escola onde foram formados e graduados em Cintos Negros alguns dos pioneiros da modalidade. São eles, e depois mais tarde, já alguns dos seus alunos, que vão contribuir para a visibilidade e expansão do Karate-Do Shotokai.
Carta de Inscrição e Carta de Graduação da Academia de Budo |
J.P. - Quais foram as etapas dessa expansão?
R.C. – Eu considero 3 etapas distintas: os primeiros passos, o crescimento e a grande expansão. Pela minha parte, de 1964 a 1969 na Academia de Budo. De 1969 até 1978, com o Mestre Tetsuji Murakami e com a Murakami-Kai/Shotokai de Portugal, e a partir de 1979 e até hoje, com o Mestre Mitsusuke Harada e com a A.P.K.. Destas 3 etapas fazem parte o pioneirismo, o aparecimento das primeiras Associações, a CDAM, os filmes do Bruce Lee, muitas demonstrações, o “Boom” da modalidade, os estágios regulares com Mestres Japoneses, os contactos e as filiações internacionais, os cursos de formação, a organização federativa e os primeiros campeonatos.
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Cartão da Academia de Budo (capa e interior) |
J.P. – Recordar um pouco...
R.C. – Iniciei a prática do Karate em 11 de Abril de 1964. Fui graduado em 1º Dan, na Academia de Budo, em Outubro de 1966. Cumpri parte do serviço militar na Guiné, para onde embarquei a 23 de Fevereiro e cheguei a 1 de Março de 1969. Naquela altura, só podíamos vir de férias após seis meses de permanência no Ultramar. Perdi o primeiro estágio com o Mestre Murakami, mas consegui fazer o segundo. Calhou bem. Estava em Lisboa. Regressei a Portugal a 28 de Dezembro de 1970.
Cartão da Murakami-Kai (capa e interior) |
J.P. – Impressões desse 1º Estágio...
R.C. – Achei o Estágio muito básico e com um Karate totalmente diferente do que tinha feito até então. Zenkutsu muito baixo e comprido, gedan barai, oi-tsuki, Kiba Dachi, Taikyoku Shodan... e pouco mais. Para um 1º Dan era pouco...
Em conversa com o Dr. Pires Martins ele disse-me: ”Bom, é assim porque estamos numa fase inicial. Penso que no futuro será diferente”.
Num dos dias do estágio esteve presente o Mestre Miyazaki - 4º Dan da JKA, e mais tarde líder incontestado do Karate Belga. Não fez quase nada do Ki-Hon, ficou a ver. Soube depois que pediu ao Mestre Murakami para fazer Kumite com todos os Cintos Negros presentes. O Mestre Murakami não permitiu. Então, pediu para fazer um Kata. Fez a Kata Hangetsu e saiu do Dojo com cara de poucos amigos. Tinham-se conhecido na noite anterior e o Dr. Pires Martins convidou-o para aparecer no estágio.
No fim do estágio fiquei muito pensativo... Haviam opiniões diferentes. Houve uma cisão.
J.P. – Então, o que o fez continuar?
R.C. – Acho que na altura não estava preparado para aceitar a mudança. Não conseguia entender bem o futuro daquele Karate diferente de tudo o que já tinha visto. De regresso à Guiné, tive tempo para pensar sobre o estágio... e tomar uma decisão. Tudo exige escolhas.
J.P. – E qual foi a sua?
R.C. – Conhecer melhor a prática e o Mestre.
J.P. – Os estágios foram sempre na Academia de Budo?
R.C. – Não. A partir de 1973, e com o número de estagiários a aumentar, o Dojo da A. Budo tornou-se pequeno e os estágios passaram a ter lugar noutros locais com maior capacidade. Esse aumento de praticantes revela-se já em 1976, aquando da visita a Portugal do Mestre Egami, juntando no ginásio do Liceu D.Pedro V em Lisboa, cerca de mil praticantes.
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Certificado de Estágio - Academia de Budo |
J.P. – Li um artigo seu sobre um encontro com o Mestre Harada em Paris, no final de um estágio com o Mestre Murakami. Como eram os estágios em França?
R.C. – Eram bons. Fiz estágios em Paris em Maio de 1975, em Dezembro de 1976, e em Maio e Dezembro de 1977. Numa das vezes levei comigo vários alunos do Judo Clube de Portugal, cintos negros e castanhos. Noutra ocasião, o Francisco Gouveia foi comigo. Os estágios eram diferentes, embora a dureza fosse igual. Na altura, o nível dos franceses era mais avançado que o nosso, daí o nível técnico dos estágios estar relacionado com as graduações deles.
O mais graduado era o Michel Sue, 3º Dan, mas haviam alguns primeiros e segundos Dans. Para nós, era bom termos parceiros da nossa graduação e também mais graduados. O Mestre em França era um pouco diferente...
J.P. – Voltando à expansão...
R.C. – Pela minha parte, dir-lhe-ei que em 1971, fui convidado pelo Engenheiro Costa Lopes, na altura Presidente da Direcção do Judo Clube de Portugal, para iniciar o Karate-do Shotokai no clube. Eu ainda estava na Academia de Budo, mas após uma reunião com o Dr. Pires Martins, e ouvindo os seus conselhos, aceitei o convite. Rapidamente o Judo Clube de Portugal se afirma como um grande clube de Karate-Do Shotokai na área da grande Lisboa.
Durante a década de 70 chegam às centenas os sócios do J.C.P. praticantes de Karate. Em 73 tinha quatro classes de uma hora, duas vezes por semana e já separadas por graduações. Começava às 19h e acabava às 23h. As aulas eram abertas ao público e a assistência era sempre numerosa. Também abrimos classes de manhã, orientadas pelo João Henriques.
É também a partir deste clube que alguns praticantes deram origem a muitos novos centros, contribuindo assim para a expansão do Karate-Do Shotokai.
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Grupo de graduados com Mestre Murakami - JCP |
J.P. – E a qualidade desses praticantes?
R.C. – A qualidade era boa. Mas essa qualidade aparece como fruto de muito trabalho e de uma prática correcta. Por outro lado, estávamos sempre presentes em todos os Estágios orientados pelo Mestre Murakami, e essa qualidade revela-se na obtenção de vários cintos castanhos.
Esses Estágios serviam para adquirirmos mais competências, para sermos cada vez melhores naquilo que fazíamos.
Depois dos Estágios, e já nas aulas regulares, era feita uma revisão do que fôra ensinado, do que realmente tinham aprendido e do que podiam mostrar. Desta forma, eu obtinha uma confirmação efectiva do progresso dos meus alunos.
Cada vez mais eu “sentia” que precisávamos de quadros humanos para dar “o salto pretendido”.
Em 1974, os dois primeiros cintos negros da Murakami-Kai, em final de Estágio e em exame efectuado pelo próprio Mestre Murakami, nas instalações do S.L.B. no Estádio da Luz, são alunos do Judo Clube de Portugal. São graduados em 1ºs Dans José Carlos Antunes e João Henriques. Três anos após o início do Karate no Judo Clube de Portugal e cinco depois do primeiro Estágio em Portugal do Mestre Murakami, tinha formado os meus primeiros Cintos Negros.
Dois anos mais tarde (1976), no fim do Estágio realizado no Atlético Clube de Portugal, o Fernando Elvas, candidato a 1º Dan, e meu aluno no J.C.P., “chumba”. Nunca tive uma explicação clara, da parte do Mestre, para este facto. O Fernando Elvas era um Karateca “fora de série”. Após este episódio, o Fernando Elvas sentiu-se injustiçado e abandonou o Karate, dedicando-se ao Full-Contact. Em 1978 seria a vez do Soares Miguel passar a 1º Dan no final de mais um Estágio com o Mestre Murakami, realizado no ginásio da Escola Náutica de Paço D´Arcos.
J.P. - E os outros pioneiros?
R.C. –Também deram a sua contribuição. Creio que o Alexandre Gueifão continuou a ensinar na Academia de Budo e depois em Agualva-Cacém. O M. Ceia na Marquesa de Alorna, o Mário Rebola no B.E.S. e numa escola em Alvalade, e uma segunda geração, casos do A. Lima no Ateneu Comercial de Lisboa e do Francisco Gouveia nos Olivais e em Setúbal.
No Norte, a tarefa inicial coube ao António Cacho da Bushidokan e, mais tarde, a Fernando Sarmento e a António Cunha.
J.P. – Ficamos por aqui?
R.C. – Não, não ficamos por aqui. Continuei a melhorar constantemente a qualidade dos meus alunos, para responder de um modo mais adequado às oportunidades que nos chegavam. E surgem, mais uma vez, através de um convite de um amigo meu do Judo, o Mestre Barata, pedindo-me para que indicasse um Instrutor para o Judo Clube de Almada.
Em 1974, Francisco Silva e Jaime Castro (ambos do J.C.P.) estão a ajudar no crescimento do Shotokai em Almada. De seguida, temos Karate-Do Shotokai na Siderurgia Nacional com José Carlos Alverca e José Garcia na Baixa da Banheira, e em 77 em Alhos Vedros. O ano de 74 é também o ano do início do Karate em Mafra. Fico eu a dar as aulas, e mais tarde o João Henriques, mas com a “promessa” de que, logo que surja o primeiro Cinto Negro “da terra”, será ele que tomará conta das classes. E assim foi.
Em Setembro de 1980 Mário Ferreira é graduado em 1º Dan e inicia o seu trabalho em Mafra. A partir de então, e fruto da sua dedicação, surgem outros cintos negros, seus alunos, que dão origem à expansão do Karate nessa região. A saber, Albino Branco para a Ericeira, Simões Luis para o Seixal (Ericeira) e Lagoa, José Bonifácio para a Achada, o próprio Mário Ferreira para a Encarnação e o Bruno Rosa na Igreja Nova. Entretanto, em 74, a expansão continua e novos centros Shotokai vão surgindo.
No Clube Desportivo de Paço D´Arcos, com José Carlos Antunes; no Dramático de Cascais e no Grupo Desportivo da TAP, comigo e, de seguida, os meus alunos de Cascais: Fernando Brito ensina na Chesol e no Cobre; Renato Martins e depois Cipriano Pereira nas Fontainhas; Carlos Silva no Complexo Desportivo de Alcabideche; António Ferraz na Abrunheira.
J.P. – O Judo Clube de Portugal é, portanto, um ponto importante no desenvolvimento do Shotokai...
R.C. – Sim, é verdade. Um pouco de tudo que foi importante e que aconteceu, partiu dali.
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Classe em Seiza. Estágio no JCP com Mestre Murakami |
J.P. – Durante quantos anos ensinou no Judo Clube de Portugal?
R.C. – Durante 37 anos.
J.P. – Já falámos sobre Lisboa, Cascais, Mafra, Margem Sul, Norte. O Karate-Do Shotokai chegou a outros locais?
R.C. – Sim, chegou. Ainda falta referir o papel importante de mais alunos do Judo Clube de Portugal. Começo pelo Soares da Veiga na Sociedade União Sintrense; o Manuel Sizudo e o Soares Miguel no Centro Shotokai de Sintra; o António Janeiro e o João Silva no Judokai do Cacém e em Samora Correia; o Augusto Silva em Queluz; o Rui Marques em Stº Ant. dos Cavaleiros; o João Coutinho em Benfica; o Roberto Illa no Algueirão; o Manuel Sousa nos TLP; o Elias Santos no Barreiro, e uma segunda “vaga” em Sines com o Jorge Guerreiro, em V.N. de Milfontes com o Francisco Morais e no Funchal com o Juan Silva.
J.P. - No seio da Murakami-Kai a sua influência e a dos seus alunos era grande...
R.C. – Era. Trabalhei muito como “missionário” em algo em que acreditei... Como dizia um amigo meu (karateka) já falecido, “fizeste muito caminho e pouco negócio”.
J.P. – Numa resposta sobre o que o fez continuar, disse que foi “conhecer melhor a prática e o Mestre”. Conheceu bem o Mestre Murakami?
R.C. – É difícil conhecermos bem alguém com quem só estamos de tempos a tempos. No entanto, depois do Dr. Pires Martins, organizei durante vários anos os estágios do Mestre Murakami em Lisboa. Isso implicou uma aproximação. Ia buscá-lo ao hotel, almoçava com ele, levava-o para o estágio, jantava com ele, levava-o para o hotel e ficávamos na conversa, por vezes, até tarde. O tema era quase sempre o Karate mas de vez em quando, falava sobre as dificuldades por que tinha passado durante a guerra no Japão. Naturalmente e pouco a pouco, fomo-nos conhecendo melhor.
Em Paris, convidava-me sempre para um jantar num restaurante de “peixe cru”, outras vezes, no seu primeiro e pequeno apartamento na Rue do Chateau, e mais tarde, também na sua casa nova na rue d´Issy em Boulogne. Criámos alguns laços de amizade sem perder a relação Mestre/aluno. Foi o Mestre da minha juventude. Tecnicamente era perfeito.
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Mestre Murakami explicando técnicas com Raul Cerveira |
J.P. – Mas em 1978 houve um afastamento...
R.C. - Sim, houve. O ciúme existe, temos de viver com ele...
J.P. – Mais algumas palavras?
R.C. - Em 1987 eu estava em Paris quando o Mestre faleceu. Participava num estágio da Federação Francesa de Karate e fui informado pelo Daniel B., que o Mestre Murakami tinha falecido nesse dia. Faleceu ainda novo. Tinha 60 anos. Foi uma perda muito grande para os seus alunos.
O Mestre Murakami foi também um pioneiro do Karate no Ocidente.
Chegou à Europa (França) em 1957, com 30 anos de idade. Esteve em Espanha (Santander) em 1959, a ajudar no desenvolvimento do Karate espanhol. Ensina na Jugoslávia e na Itália. O seu “estilo” era o Shotokan, mas não estava integrado em nenhuma organização. Chega a Portugal em 1969 com 42 anos de idade.
Um ano antes (1968) tinha conhecido no Japão o Mestre Shigeru Egami e aderido ao Shotokai.
Uma vez, em sua casa, estávamos já sentados à mesa e a sua esposa entrega-lhe uma carta vinda do Japão. Lê a carta com um ar de satisfação e de alegria. Vira-se para mim e diz-me: “Raul, acabo de receber nesta carta, da parte do Mestre Egami, a responsabilidade técnica do Shotokai para a Europa.” Fomos almoçar fora!
Penso que também ele próprio se sentiu atraído e se sujeitou a uma “transformação,” no sentido de seguir as ideias e um Karate diferente do seu.
Quando se muda o Oi-tsuki, tem que se mudar tudo o resto...
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Legenda:
1 - Certificado de Estágio
2 - Primeiros exames de graduação. Academia de Budo - 1971
3 - Raul Cerveira, M. Ceia e A. Gueifão na Academia de Budo
4, 5 - Primeiras classes na Academia de Budo
6 - Cerimonial. Academia de Budo
7 - Estágio na Academia de Budo
8 - 2º Estágio em Portugal. Academia de Budo
9 - Mestre Murakami explicando Tai-Sabaki
10 - Entrega de diplomas no fim de estágio. Academia de Budo
11 - Ki-hon
12 - Prática - Academia de Budo
13 - Academia de Budo - (da esqª para a dirª) A. Gueifão, R. Cerveira, Mestre Murakami, M. Rebola, D. Nestor
14 - Exames de graduaçãocom Mestre Murakami - Judo Clube de Portugal
15 - Grupo de estagiários no JCP
16 - Mestre Murakami explicando técnicas com Raul Cerveira
17 - Mestre Murakami observando o aquecimento
18 - Troca de impressões... Mestre Murakami e Raul Cerveira - JCP
19 - Mestre Murakami explicando kata - JCP
20 - Estágio com Mestre Murakami no JCP
21, 22, 23 e 24 - Visita do Mestre Egami a Portugal
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